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Em que medida a minha realização cultural depende da minha cultura técnica?

Não será difícil partilhar a perspectiva histórica de Ellul, quando na enunciação da sua Teoria dos Três Meios fala da eminência do “Meio da Tecnologia”, tampouco entender o caminho (ou evolução) que até ele nos trouxe, mas serão tão directas as consequências deste “novo meio” quanto ele nos quer fazer entender?

De certa forma a resposta parece-me dependente da posição de cada individuo na fissura entre o seu carácter institucional (e social) e a sua individualidade, isto é, até que ponto o sujeito se responsabiliza também pela construção do “meio” que o rodeia e, por outro lado, compreende a forma como o absorve e a ele reage.

Por outras palavras mais cruas: a Humanidade e seus conceitos (englobando aqui toda a cultura) é vitalmente composta por homens.

Assim, logo à partida, recuso-me a aceitar plenamente a ideia de John Zerzan (no prefácio à edição portuguesa do Futuro Primitivo) quando diz que “o capitalismo não criou o nosso mundo, mas sim a Máquina”. O capitalismo é uma ideia, um meme, executado mais ou menos conscientemente por pessoas dotadas de poder.

Esse maquinismo, para vias de maior produtividade, é a vontade de tais lobbys poderosos. É certo que há bombardeamento ideológico, que nos tentam moldar a essa vontade e que tal uniformidade se opõe à riqueza da diversidade mas em que parte a massa exprime um desejo de diversidade? Ainda nas palavras de Zerzan, “demasiadas pessoas, pelos motivos habituais (medo, inércia, incapacidade de produzir, etc.) vão aceitar passivamente esta realidade tal como está”.

Paralelamente surge Erik Davis que nos fala de todo um grupo de pessoas a quem chama “tecnopagãos” e que, segundo ele, se dedicam tanto a um meio tecnológico como aos mais variados tipos de magia e ocultismo, estabelecendo entre os dois uma proximidade tal que se quis adivinhar nisso uma relação (quase) igualmente mística, personificando ainda mais a máquina de que há pouco falávamos e fazendo dela uma espécie de portal para um futuro ou cosmos. Mas afinal o que é essa Máquina?

Por um lado temos o desejo dominante de uma produção veloz, procurando ingenuamente criar qualidade de vida, por outro a necessidade de responder a necessidades humanas. O trabalho foi efectivamente dividido com a industrialização, criaram-se mais recentemente ferramentas como os computadores que conhecemos, ligaram-se uns aos outros em rede com linhas telefónicas super-poderosas e no extremo (antecipável) da tecnologia teremos os robots. E a realização cultural nisso? Bem, na minha opinião, para uma grande maioria de pessoas a sua realização cultural passa pelo que ditar “o ecrã” (não a máquina mas quem por ela comunicar), é a cultura de massas, sendo obviamente previstas as divergências, ou seja, “o ecrã” parece dar opção quando as escolhas já estão feitas.

Assim, todos e em qualquer situação, temos acesso a uma “experiência cultural” mas não obrigatoriamente a uma “realização cultural”. Para haver realização cultural neste ambiente é preciso, no mínimo, compreender o que são tecnicamente estes canais, o que veiculam e como. Ao olharmos de novo para os tecnopagãos apercebemo-nos que estão sob um certo fascínio (que me sugere uma certa alienação da realidade electrónica), ao contrário de outros a quem a máquina repulsa. Diria que são os dois igualmente delirantes; a máquina tem uma função programada, acção essa que até pode ser de uma complexidade difícil de exprimir, pode até ser feita sem a nossa intervenção, mas a máquina nunca vai desejar ultrapassar-nos, simplesmente nunca vai desejar. A máquina nunca há-de ter vontade própria, ao contrário do que narra Kubrik na sua Odisseia (bastam algumas bases de informática para compreender isso) e, quem não lhe admitir a sua função, também não poderá aceitar a legitimidade de qualquer outro utensílio (desde os nossos primórdios).

Isto não responde ao enunciado; o enunciado só pode ser posto a quem tenha uma noção do que poderá ser a sua realização cultural. Na medida em que falamos de cultura, que nos será comum a todos, estamos certamente subjugados ao paradigma actual. Mas ponhamos as coisas neste extremo: sem ler nem escrever, apenas sujeito à tradição oral, poderia contemporâneamente contentar-me com o raciocínio lógico-discursivo, poderia até extasiar-me diante de uma pintura da qual desconheço o processo criativo, poderia até sentir-me satisfeito culturalmente mas ninguém negará que certas coisas me estariam a passar ao lado (afinal quem mede o nível de satisfação?).

Como todos os conhecimentos (e experiências), a cultura técnica levanta barreiras e revela-me horizontes culturais, tanto como emissor/produtor como como receptor, mas não garante a minha satisfação cultural. Diria ainda mais, quanto mais barreiras forem levantadas menos próximo estarei da minha “satisfação” da mesma forma que “eu só sei que nada sei” (e no fundo ninguém disse que tínhamos de sair satisfeitos!), mas cada “desbloqueio” será uma experiência única no meu panorama. Em contra-partida, a falta de cultura técnica pode evidentemente tornar inacessível ou inapreciável certo tipo de cultura (ora quem não souber navegar na internet não terá com certeza acesso a certas interactividades, como por exemplo todas as novidades e-sociais introduzidas pela dita web 2.0, por exemplo), não sendo isso impeditivo para que um qualquer sujeito se sinta satisfeito culturalmente.

Concordo que se trata de um paradigma forte o que vivemos, capaz de potenciar ao infinito qualquer ideia humana (sem reduzir em significado o que se procura exprimir pois se trata apenas de uma metodologia), o que pode parecer assustador, mas não vejo nisso a catástrofe (como Ellul ou John Zerzan). Para mim, e sem me querer estender demasiado neste sentido, o grande problema está na massa embalada e adormecida que não se parece preocupar muito com a qualidade (ou natureza) do que consome, em todos os sentidos, nem tampouco se dedica a uma verdadeira escolha (ou condição). Então prefiro a visão (muito menos contemporânea) de Thomas Moore que, não só atribui um papel equilibrante à arte como avança que “uma vez que reconheçamos esta «desafortunada» condição, poderemos abraçar a arte íntima e entusiasticamente, e julgá-la não como uma ameaça à nossa inteligência e virtude, mas como instrumento da construção da alma”.

E apesar de o optimismo não fazer assim tanto o meu género lembro o grande pensador (entre muitas outras coisas) que foi Buckminster Fuller que, resumindo por palavras minhas, via em todo este progresso uma libertação para o Homem, pois se robots poderão fazer os nossos trabalhos mais pesados, uma grande quantidade de cabeças poder-se-ia dedicar à arte, ao pensamento ou até à espiritualidade (isto, obviamente, pressupondo toda uma construção utópica em que todos os homens seriam muito mais ambivalentes).

António Andrade 09/05/08


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