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Virtualidades

Ao longo do seu texto sobre “A escrita automática do mundo” Jean Baudrillard revela uma forte resistência à global virtualização da realidade. Sintetizando a ideia por ele introduzida nesse capítulo, vivemos o extermínio do real por um clone virtual, não só como absoluta desilusão relativamente a anteriores paradigmas, mas sobretudo como “resolução antecipada do mundo”. Como processo autofágico, a “alta definição” surge então a Baudrillard como fim desvirtuante.
Numa primeira leitura parece ser expressa uma preocupação generalizada quanto aos novos meios e formas de neles actuar mas já uma visão mais cuidadosa revela laços mais profundos, sendo de facto a analogia da Ópera de Pequim disso ilustração exemplar. O contraste essencial é aí visto entre ilusão e desilução, entre a vibrante performance de dois homens e uma produção hiper-realista da mesma cena (imagine-se Hollywood). Trata-se aqui justamente de acentuar uma margem não só criativa mas também interpretativa.

Se nesta abordagem parecemos estar diante do empobrecimento experimental de toda uma esfera, e da subversão de outras tantas a esta mesma, tal está intimamente ligado ao tempo. A virtualização enquanto nova realidade vive a um ritmo que finalmente não se parecia encontrar na vida real: o instante, mais ainda “em tempo real”, e é essa necessidade de imediatez que traz o fim dos silêncios de qualquer peça. Não saberei resolver se será em resposta a um quotidiano demasiado industrializado no seu ritmo que surge uma sede de imediato, quase arrítmico, mas é certo, pelo menos na opinião de Baudrillard, que é esse o grande motor das alterações trazidas pela virtualização.

O virtual, seguindo esta linha de pensamento, acaba por se definir num mundo independente mas não autónomo, o que acaba por ser um universo bem abrangente. Já percebemos, pelo exemplo acima referido, que o virtual não surge apenas com os computadores mas que poderá ser associado, no mínimo, ao aparecimento de ecrãs, cinema e televisão, tendo obviamente vindo a aperfeiçoar-se desde então ao seu estilo. Não me parece no entanto correcto parar aí, afinal podemos arriscar que o virtual, se tomado na sua globalidade, é também caracterizado por tornar algo comum a todos os expostos. Assim o rádio, e a imprensa já eram algo virtual, criando todo um imaginário ou corpo comum, e tudo isso será tido geralmente como a cultura de massas. Se o autor não se preocupa em definir tais amarras, diz algo que no fundo se aproxima da ideia que sugiro quando afirma que, e tomemos aqui a virtualização no seu extremo, se trata da “transformação de todos os nossos actos em informação”.

Esta última visão implica já uma situação mais contemporânea em que os novos meios de comunicação, nomeadamente a internet, colocam qualquer sujeito, não só no imediato mas, de uma forma falsamente democrática, em plena interactividade, no centro da acção (o que levanta também outras questões de ordem identitária). Podemos arriscar apontar as consequências disso são: já falamos dos resultados numa esfera que poderíamos entender por criativa (se bem que isso já não exista, é tudo “informação”) mas sobretudo o fim de uma posição crítica, por si mesma, pelo imediato e pelo excesso de informação, ou falta de dúvida. Isto é, para o autor, o fim da alienação, somos informados, e de tal forma informados, que isso acaba por ser fragilizante.

Chegados à época do processamento computorizado faz finalmente sentido o título do ensaio, “O Crime Perfeito”. No limite do conhecimento que hoje podemos ter, e sublinhando esta ideia o carácter independente e ambicioso da virtualização, a inteligência artificial surge como o nosso pior traidor, não só por por definição materializar o nosso pensamento, mas justamente por fazer uso da sua capacidade para nos desmantelar. Definitivamente é fatal a visão do autor, apesar de não deixar de admitir, na minha leitura, que talvez não seja necessário ir tão longe quanto a sua narrativa prospectica.

Fazem sentido os problemas levantados por Jean Baudrillard nesta questão, afinal parecemos navegar num mar de “sombras de sombras”, fundamentalmente sem corpo, mas talvez faça ainda mais sentido duvidar do panorama proposto. Se a virtualização parece ter vontade própria vale a pena pensar no que lhe dá tal força: obviamente a vontade acondicionada de todos os sujeitos mas, já na raiz, encontramos o “capital”, que cada vez mais se revela cego. Antes de presos ao ecrã somos já regidos por impulsos consumistas e outras pulsões que, na minha perspectiva, são insanos.

Se é indiscutível a diferença ao nível experimental no episódio da Opera de Pequim, em que dois actores, por si, pareciam produzir todo um cenário que hoje seria objecto de um realismo de produção extremo, será fácil compreender que a virtualização não está sozinha no processo. Afinal Hollywood gera mesmo emprego, produz progresso ao seu estilo e mais do que tudo isso, agita o caldo do “capital”. Discordo portanto da personificação que o autor faz da virtualização preferindo deslocar essas responsabilidades para o modelo dominante referido.

Repare-se no entanto que não nego o fenómeno, pelo contrário, ele está bem presente. Trata-se sim de um estádio, inevitável. O ponto fulcral, que foi aliás também claramente enunciado pelo autor, é o tempo, no sentido ja falado de imediato: o que ainda não o é tende a ser, tudo desde a produção ao consumo se tornam cada vez mais rápidos e o virtual acaba mesmo por ser o meio mais dinâmico.

Por outro lado, se é verdade que tem algo de obsceno e de profundamente desvirtuante esta transferência do real para o virtual, e ainda contra o autor, não me parece o fim da alienação mas antes a sua forma máxima (será?). Afinal quanto mais uns enterram a cabeça no ecrã mais outros se afogam na fome. Num mundo tendencialmente desequilibrado o que poderia ser extremo já não é. O virtual, sendo que poderia ser exactamente o mesmo meio o propagador de ideias de salvação concreta, não é um monstro em si, é-o sim quem o comanda.

Parece-me então importante dar destaque a algumas dificuldades. A primeira e de maior relevo é de facto compreender o que é a virtualização. Baudrillard parece-me reter demasiadas coisas dentro do mesmo conceito o que acaba por ser generalizante. Temos por um lado a cultura de massas, que engloba tanto informação como comunicação, por outro temos novas ferramentas. Estas ferramentas, concretamente o computador, potencializam de tal forma a capacidade projectual do ser humano que podem paradoxalmente ser os principais contribuidores para a sua alienação do exterior. Temos portanto um lado utilitário e outro que será um plano para o qual convergem as mais diversas atenções, um imaginário público.

O segundo obstáculo situa-se na ideia de informação, frequente no texto enunciado. Em que medida são as nossas acções transformadas em informação? Não seria mais pertinente falar de comunicação? De facto uma das maiores ilusões da virtualização é a de que comunicamos, por agirmos e interagirmos, mas não me parece acertado elevar isso a informação. Seria equivalente a levar qualquer dito alheio como informação (e lembremos aqui novamente os problemas identitários levantados paralelamente por toda esta questão). Dentro da ideia de imaginário pululam efectivamente sub-mundos, mas isso sempre existiu na realidade, grupos e fascinios, mitos e “verdades cientificamente comprovadas”. Não será a verdade oscilante, ou antes, múltipla?

Por final, gostaria ainda de discutir a ideia de que a inteligência artificial vai provocar o que quer que seja de terrivelmente nefasto, como por exemplo, “o crime perfeito”. Pensar que um dia vamos ser superados por um qualquer condutor eléctrico parece-me absurdo e fantasioso, da mesma forma que afirmar que a virtualização não deixa marcas me parece, no mínimo, desinformado.

Não quer isto dizer que me encontro em desacordo com o autor, parece-me antes que a questão se centra na alienação. (No limite o próprio autor está alienado.) A política terrorista que vivemos consiste inclusivamente em desviar a nossa atenção para questões secundarias, frequentemente como reacção à novidade, juntamente com a implantação de um regime dicotómico e, tocando nas dicotomias, parecem ser essas queridas ao autor quando fala no “fim da ilusão do Bem e do Mal”. O problema está bem mais enraizado do que o virtual (que ainda não chegou a muitos homens).

Obviamente a virtualização como, simultaneamente, universo paralelo e ferramenta, pode parecer aos resistentes um “mal”, mas não passa de um novo paradigma, (ainda) uma novidade, que nem sequer me parece subjugar completamente os anteriores. Obviamente é complicado lidar com um espelho quando o que se nele se vê não é forçosamente agradável. Obviamente o problema está no objecto reflectido.

Há que combater a nostalgia e assegurar um futuro. Não digo um futuro melhor mas um futuro pois é ele que está em risco, e não é certamente o virtual a ameaça. Deve, pelo contrário e usufruindo do acréscimo de alcance e velocidade, dele (ou fazendo uso dele) como da realidade, fazer-se cenário de uma atitude mais consciente e positivamente reformuladora.

Bibliografia

  • “A escrita automática do mundo” in “O crime Perfeito”, Jean Baudrillard

António Andrade, 16/06/08


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