A Arte como Antropologia
Escrito em Julho de 2008, por dardna em Antropologia da Arte, Design de Comunicação (escrito).
Apesar de estudar o que em comum mais temos – o humano e todas as suas relações – a Antropologia apenas se consolida verdadeiramente como ciência modernamente. Poderá isto até parecer profundamente contraditório, a verdade é que pela sua abrangência, seja entre os pólos tempo e espaço ou entre cultura e fisiologia, tardou a definição de focos e, sobretudo, de métodos.
Retrospectivamente, já a Antiguidade Clássica parece pensar-se enquanto sociedade e até em observação de outras culturas. E afinal toda a literatura de viagem, tão característica do lusitano, é também um estudo antropológico. O problema, como já o vimos, é a falta de um objecto claro, e se os trabalhos de Darwin e as suas conclusões evolucionistas lançam um primeiro paradigma, marcadamente etnocentrico, para pensar diferentes culturas e sociedades – a Antropologia Cultural, é o polaco Malinowski que lega a metodologia mais marcante para a disciplina, com a ideia de trabalho de campo com observação participante, sendo as suas investigações de 1915, na Austrália, disso exemplo.
Repare-se que se, em reacção ao Darwinismo Social, surgem ao longo do tempo visões alternativas como o Estruturalismo de Lévi-Strauss, que pensa em pólos regentes de uma estrutura social, ou o Culturalismo de Franz Boas, que prefere relativizar cada cultura a aceitar o etnocentrismo dominante, não abandonando uma ideia de progresso, ou ainda os seus discípulos e o conceito de “Escola de Cultura e Personalidade” e a importância dada à psicanálise, a verdadeira questão sobre o ser humano e as suas relações parece demasiadas vezes encoberta por preocupações de legitimação de poder e superioridade. O problema aqui reflectido é a dificuldade de pensar a alteridade (num sentido universal) sem a deformar e acaba por acompanhar qualquer movimento no sentido de desmistificar o desconhecido ou estranho.
As questões levantadas pela Antropologia são também transportadas para outras esferas digestivas e produtoras culturalmente e a arte é então duplamente interceptada: não só como objecto de estudo mas também como motor de pensamento; por um lado é reveladora do ambiente em que se insere, clarificando funções, símbolos, a visão narrativa histórica, laços e processos, por outro, e aqui valem em muito as considerações da Psicologia, como expressão e processamento da experiência de alteridade.
Admito ainda que esta necessidade de racionalizar e até de exprimir a “experiência de alteridade” tem traços marcadamente ocidentais que talvez não encontremos noutras culturas. Paralelamente é indiscutível o determinismo de todo o processo histórico nas relações sobre as quais se debruça a “ocidental antropologia”. Assim resta (ou não) a dúvida ou, pelo menos, a sensação de um inevitável etnocentrismo (a priori em qualquer abordagem, seja psicológica, por exemplo, mas em especial nesta acessão antropológica). Em todo o caso é factual que o curso dos acontecimentos faz com que a problemática da alteridade seja significativa e dê origem ao que se poderá chamar de Primitivismo, por vezes tomado apenas em relação a uma espécie de atracção pelo estrangeiro mas que, pelo menos na minha opinião, se pode estender a um processo auto-reflexivo.
Sem nos afastarmos da arte, e justamente entre os dois pólos que lhe atribuímos há pouco, foram evidentes os exemplos de fracasso, ou pelo menos de injustiça, na forma como se tratou a questão. Será bom lembrar novamente o contexto histórico sobre o qual faz sombra a colonialização. Como tivemos oportunidade de observar, tanto na exposição de 1984 no MoMA como em França, em 1989, com a exposição “Les Magiciens de la Terre”, de tal forma foi desequilibrada a proposta de questionamento do Primitivismo que se tornou embaraçoso o resultado: enquanto no MoMA se parecia legitimar subtilmente a obra Modernista face às produções de todas as outras culturas exteriores, em França fala-se de artistas “do centro” em oposição aos “das margens” e consideram-se os “pesos” dos dois grupos equivalentes.
Tanto numa situação como noutra são levantadas questões que ainda se encontram por resolver e que são certamente a chave das relações de poder que ainda hoje subsistem. Passa, neste campo artístico, pela qualidade das relações de apropriação ocidental para produzir o Primitivismo, mas em geral pela ausência de verdadeiro contraste com a visão do outro e pela prevalência de uma “vontade ocidental”.
Não são estas críticas originais, logo em reacção às exposições houve quem as apontasse e para além do que adiantei, alguns críticos parecem ainda responsabilizar os artistas ocidentais pela tendência formalista e pelas consequências que tal acarreta. No caso das “Demoiselles d’Avignon” de Picasso, por exemplo, tudo indica que terá havido um contacto com máscaras tribais, mas nada força a que isso tenha tido mais influência que qualquer outro factor mais ou menos próximo. Enquanto o artista se interroga e produz, a sociedade organizou e promoveu tais exposições, as quais não conseguiu evitar de embeber do seu determinante etnocentrismo. Mais ou menos conscientemente, estava-se a “primitivisar” o primitivo, nada tinha a ver com contextualização mas, pelo contrário, em tornar “o estrangeiro” ainda mais estrangeiro – no fundo aquilo a que se chama orientalismo. A apropriação parece ser feita de forma duplamente insultuosa.
Mesmo tomando o ideal de um primitivismo de foco conceptual, talvez não faça sentido o mote destas exposições: por, no ideal, se recriar o conteúdo ou estado de espírito do “primitivo” a obra não se aproxima mais do “primitivo”; tende até a ser original mas, na minha opinião, não guarda laços com o “primitivo”, não sendo mais que uma interpretação do “eu” sobre o exterior (enquanto perspectiva inédita).
Nesse ideal primitivista sente-se claramente um sentimento de retorno, ou nostalgia, que não se suspeitava nas exposições. Afinal, o primitivismo na arte, ao contrário do que viu a crítica e mesmo contra ela, é a valorização de uma alteridade face ao presente e moderno progresso; procura-se o outro do racional corrupto ocidental, um regresso à Natureza no espírito do Romantismo. Abrem-se então vários níveis de alteridade e é essa a riqueza do primitivismo: o nosso problema com a alteridade é na verdade uma questão de identidade. E porque é mais fácil começar pelo que não somos, parecem mais previsíveis as atitudes tomadas nas referidas iniciativas ocidentais.
Mesmo internamente ao indivíduo há a questão da alteridade, e aqui poderíamos apoiar-nos na psicologia mas o próprio processo ontogénico o implica: há, no mínimo, o adulto e a criança (que determina o adulto), para não falar da presença de várias vozes ou “eus”. Se a sociedade que organizou as exposições primitivistas não resolveu ou não atingiu o verdadeiro problema, o artista trabalha-o conforme as mais diversas inspirações.
Modernamente, a efervescência e disseminação de ideias faz com que a absorção das novidades dos vários campos de estudo seja cada vez mais ampla. Se caminharmos de alguma forma na direcção do auto-conhecimento, cada vez são mais trabalhados encontraremos os mecanismos da identidade e, paralelamente, a própria alteridade. Se esta ideia é aceitável podemos dizer que não só é fértil o terreno primitivista como cada vez mais o há-de ser.
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