A Arte como Antropologia
Escrito em Julho de 2008, por dardna em Antropologia da Arte, Design de Comunicação (escrito).
Então, o primitivismo na arte, demasiadas vezes tomado por aproximação a um estilo tribal, é bem mais abrangente do que o quiseram mostrar e, felizmente, isto é visível no panorama artístico.
Surgiu anteriormente o exemplo de Picasso, no qual poderão ser vistos traços tribais mas que igualmente se liga a antepassados ibéricos, e já no Japonismo, popular tanto em Londres como em Paris na segunda metade do século XIX e que poderíamos considerar uma das primeiras formas de primitivismo, nada temos de tribal. Van Gogh, por exemplo, várias vezes se inspirou nas estampas japonesas, mas também Manet e Gauguin tentaram trabalhar esse espírito de simples bidimensionalidade. Poderíamos aqui contra-argumentar com a possibilidade da simples preferência estética ou puro exotismo, de imitação e não tanto apropriação. A verdade é que, pela próprias palavras de Van Gogh, tratava-se efectivamente de um regresso à natureza. Lê-se nas suas palavras o primitivismo e o próprio processo de redescoberta do método e do olhar seriam a sua essência.
Até nos seus primeiros trabalhos observamos um processo primitivista de outra espécie, em trabalho sobre uma identidade rural, como n’”Os comedores de batata”. Sugere-se o campo mais saudável que a cidade industrializada e o mesmo tipo de oposição foi também diversas vezes explorado numa espécie de saudosismo, tanto por esse mesmo campo como pela infância, na literatura portuguesa.
Se cerrarmos mais o foco temos ainda a arte naïf, ou infantil, que, como o nome indica, joga sobre um regresso à ingenuidade da criança, o que se traduz por uma desvalorização do aspecto formal, sendo certamente realçada a interpretação emocional. No extremo do naïf poderemos ainda falar de arte bruta, por artistas em geral portadores de doença mental e que vivem e produzem completamente isolados dos principais fluxos culturais, sendo aí exposta, “em bruto”, a complexidade e autonomia da psique e do indivíduo, ou o confronto com o “outro” dentro do “eu”.
Ainda na pintura, houve também nessa época o movimento Pré-Rafaelita, de raiz inglesa, que, na essência, recusava convenções néo-clássicas da arte académica face às quais preferia o espírito mais colorido dos mestres medievais e que, enquanto retorno a “outro” melhor, podemos também considerar primitivista, assim como todas as outras vanguardas que procuram cortar com o legado do presente e reatar com um ideal distante.
Absolvendo o factor da moda ou tendências, o fenómeno da “body art” – tatuagens e outros furos – é cada vez mais comum na sociedade ocidental: se originalmente seria observável em ambientes tribais e como distintivo social ou complemento de identidade, hoje expande-se nos mesmos moldes em todo o “mundo globalizado” e, novamente pelos próprios praticantes, a questão identitária é sempre revelada. Entramos aqui também naquilo a que se chama o neo-tribalismo, que se baseia em autores como Jean-Jacques Rousseau ou o mais contemporâneo John Zerzan, que acredita, anarquicamente, que contra a civilização em que vivemos, apenas atingiremos verdadeira felicidade se retornarmos a uma sociedade humana equivalente às do Paleolítico, de contornos de pertença claramente tribais, mais próxima da Natureza e não alienada pela industrialização (o que demonstra definitivamente o primitivismo como atitude quase política).
Pegando ainda nesta ideia de tribalismo, podíamos ainda atribuir ao graffiti um papel primitivista, em que dependendo da situação, ou funciona como marca identitária de pertença a uma tribo ou como expressão de oposição e liberdade. No extremo a arte em si tende para o primitivismo pelas suas raízes místicas e pela sua capacidade auto-reflexiva.
Conclui-se portanto que se primitivismo indica uma certa postura para com o presente, a sua necessidade ou o recurso a ele traduzem uma questão identitária que afinal pode ser vista como o núcleo da própria experiência humana. Se anteriormente vimos a arte como veículo de auto-análise (em analogia com a psicanálise), é aqui prolongada essa função. É efectivamente o pensamento antropológico que, ao tentar levantar a questão da alteridade de forma organizada e concreta, nos obriga a resolver as relações que tecemos com o exterior.
Por outro lado, e talvez esta ideia não tenha sido suficientemente sublinhada atrás, em antropologia a grande dificuldade consiste em conseguir uma tese verdadeiramente neutra. Se, no extremo, pensarmos que ninguém pode tecer “verdades” sobre uma cultura que não a sua, rapidamente caímos num relativismo semelhante ao de Boas.
Na minha opinião, as visões etic (do antropólogo) e emic (do nativo da sociedade observada) terão de coexistir; cada uma é única e tem o seu valor. Esta ideia implica uma grande diversidade ou relativismo mas isso é para mim constituinte riqueza de cada cultura: afinal a forma como determinada sociedade se vê e vê as outras culturas reflecte bastante sobre si mesma. Um pensamento semelhante é o do norte-americano Clifford Geertz, a quem se atribui a chamada Antropologia Interpretativa, que dá, fundamentalmente, grande importância à análise da leitura que o nativo faz de si mesmo.
A diversidade conceptual é fértil artisticamente mas devemos sobretudo evitar que a prática antropológica sirva para sublimar uma cultura ou seus frutos sobre as outras, vincando mais profundamente as chagas da História, mas sim para evidenciar a necessidade identitária, a diferença, a diversidade e unicidade.
António Andrade
14.07.08
Bibliografia:
- http://pt.wikipedia.org/wiki/Antropologia, consultado entre 1 e 10 de Julho de 2008
Páginas: 1 2