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Da Psicologia na Arte

Deslocamento, condensação, dramatização ou representabilidade são alguns desses mecanismos e se a máxima deste pensamento é de que o sonho é a realização do desejo recalcado, a mesma ideia foi já aplicada ao cinema e daí para os restantes meios artísticos será apenas um deslize.

Afinal o criador também transporta algo para a sua criação, seja isso voluntário, consciente, ou não. Porém, quanto mais espontânea ou inconsciente a sua actividade mais encriptado podemos esperar o seu conteúdo também (mas que não se tome isto por axioma!). A psicologia trata de temas que nos são comuns a todos e, apesar de não acreditar que dois humanos possam ter exactamente o mesmo sonho, é certo que os mecanismos se aproximam relativamente. Como já o disse, o artista é também um intérprete e, enquanto tal, passa também pela problemática da percepção e vê-se também à partida vedado pelos véus de Csíkszentmihályi, ou seja, por um lado, a sua capacidade natural de encriptar a mensagem acrescida da sua capacidade técnica permitem-lhe produções “de sonho”, por outro, a possibilidade de este se encontrar demasiado enraizado numa cultura (ou num mundo das artes de Danto) acaba por tornar evidentes os traços simbólicos, os símbolos em si, que afinal são comuns a essa audiência.

Seria esse o panorama mais interessante? A primeira imagem que me ocorre são quatro pessoas a jogar um jogo de cartas mas com peças de dominó ou pauzinhos de mikado, sem que isso provoque qualquer entrave ao desenrolar da partida e bom entendimento entre os jogadores. De fora a audiência tem sérias dificuldades em seguir a estratégia de uma ou outra equipa e acaba mesmo por se desinteressar do jogo por completo. Talvez a analogia seja exagerada, ou talvez não. Isso seria o “mundo das artes”.

A verdade é que o artista é sempre uma vanguarda, ou pelo menos devia ser. Não é pelo logos nem pelo discurso que se afirma mas sim pela sua unicidade e originalidade e, ao longo dos tempos, os mais bem sucedidos terão compreendido que se uma parte de si não ficar na obra então talvez esta não seja arte. Ao longo dos tempos, parecem efectivamente ter sabido tirar proveito daquilo que são, proveito de todas as suas características e experiências, proveito de tudo o que faz deles uma construção única.

Mais uma vez Freud é aqui da maior importância, tendendo a demonstrar como a forma como é vivida a tenra fase do processo ontogénico marca toda a construção e vivência do indivíduo. Isto está fortemente ligado às ideias de prazer e sexualidade que, pelo “princípio de conservação do psiquismo”, serão determinantes na formação de imaginários, mais ou menos recalcados e mais ou menos reflectidos em fases adultas, dependendo da cultura envolvente.

Fundamentalmente, se a psicanálise de Sigmund parece poder ajudar no entendimento do eu e do outro, o que aqui mais importa é definitivamente o levantamento de mecanismos feito, por vezes de clara analogia em relação à forma de “pensar” a arte, por outras apenas como pano de fundo para a complexa rede de relações internas, sociais e culturais na qual se insere a produção artística.
Gostaria ainda de lembrar que Freud desenvolveu o seu trabalho sobre os sonhos apoiando-se no método a que se chama de “associação livre”, em que é o próprio paciente ou sujeito a decifrar o conteúdo onírico. Isto é o suficiente para mais modernamente ser criticado, sobretudo por amantes da ciência (bem objectiva) como Popper. Sem entrar em detalhes sobre a proposição deste último, afirma que a psicanálise de Sigmund Freud não é uma ciência: não se comprova a si mesma nem pode ser falseada matematicamente. Isto poderá parecer uma visão atractiva para os apologistas da razão pela razão, e até pode ter um fundo simpático ao ocidente em que nos inserimos, mas não me parece de todo anulação do que antes aqui foi dito: a arte não se comprova factualmente, assim como nos sonhos a gravidade não pesa o mesmo. Importante é compreender que mais do que fruto divino ou da loucura, a arte rege-se por leis das quais provavelmente não estamos ainda sequer próximos (assim como outras esferas), e que o simples facto de lhe conceder o benefício da dúvida já é em si uma posição crítica (fortemente aconselhada por Mihályi) e talvez o primeiro esforço no sentido de levantar os “véus de Maia” que cada vez mais pesam sobre as nossas (leia-se: de quem “auto-reflecte”) consciências.

António Andrade

10.07.08

Bibliografia:

(todos os textos fornecidos)

  • CZIKSZENTMIHALYI Mihalyi, capítulo “Os Véus de Maia”;
  • FREUD Sigmund, cap. I e II de “Psicopatologia da Vida Quotidiana”;
  • FREUD Sigmund, “Textos Essenciais de Psicanálise”;
  • SACKS Oliver, capítulo “O Discurso do Presidente”;
  • ACKS Oliver, capítulo “Ver e Não Ver” in “Um Antropólogo em Marte”.

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