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Everything is Illuminated

Um filme por Liev Schreiber adaptado da novela de Jonathan Safran Foer

A história em sinopse

Esta é a história de um jovem norte-americano de raízes judaicas, Jonathan Safran Foer, que após a morte da sua avó decide partir para a Ucrânia em busca do passado do seu avô (falecido quando ele ainda era criança). De facto, momentos antes de ceder ao seu leito de morte a senhora deixa a Jonathan uma fotografia que mostra o avô ainda jovem ao lado de uma rapariga num campo de cereais. A rapariga tem nessa imagem ao pescoço o mesmo pendente que Jonathan guardara anos antes no dia em que o avô morrera. Nas costas dessa fotografia apenas a indicação “Augustine and me, Trachimbrod, 1940”. Augustine não é a avó.

Jonathan contracta então a equipa “Odessa Heritage Tours” (constituida por Alex e seu avô) – especializada em levar Judeus Americanos em busca dos seus defuntos antepassados e heranças – para que o levem a esta Trachimbrod. Viajam através do país mas Trachimbrod parece inexistente, sendo demonstrado pelos pequenos episódios o quão afastado culturalmente está Jonathan das suas raízes.

À medida que avançam o avô de Alex, que até então apenas demonstrara raiva pelos judeus, parece cada vez mais perturbado. Alex e Jonathan nunca saberão porquê mas o espectador acaba por ser levado a entender num flashback doloroso que ele mesmo já ali estivera.

Finalmente encontram a chave do enigma quando perguntam a uma senhora – Lista – que vive isolada na planície se sabe de Trachimbrod. Responde ser ela Trachimbrod e mostra-lhes a sua colecção de recordações. Afinal Lista é a irmã de Augustine e em tempos ali viviam, em Trachimbrod, com Safran, o avô de Jonathan, mas a chegada dos nazis trouxe a destruição. Safran já partira para a América nessa altura, para preparar a vinda de Augustine, mas ela nunca chegou. Agora Trachimbrod é apenas um memorial na margem do rio e Augustine as recordações em casa desta mulher. O avô de Alex estivera também em Trachimbrod por esta altura e esta viagem parece ter mais carga emocional para ele do que para Jonathan. Fora ele também fuzilado em Trachimbrod mas o destino fez com que sobrevivesse, mas isso mais ninguém sabe.

Depois de entendido o sentido desta busca regressam a casa, iluminados pelo passado. O avô não regressa com eles pois mata-se.

O genérico

O genérico trata-se de uma composição simples que separo em duas partes. A primeira, que dura pouco menos de um minuto, apresenta-nos uma textura amarelada, marcada por pequenos elementos, sobre a qual surgem as indicações tipográficas centradas. De facto tratam-se de planos muito aproximados sobre o âmbar de que é feito o colar de Augustine e a tipografia assemelha-se muito à caligrafia de Alex (que vamos ver em cada separador de capítulo) mas aqui feita de luz. Temos assim quatro movimentos sobre esta textura: primeiro afastamos-nos dela, depois um travelling para a direita, depois para a esquerda e voltamos a afastar-nos do pormenor.

Num segundo momento a camera começa por focar uma fotografia a preto e branco de uma criança e avança sobre essa parede forrada de um mapa e outras dessas imagens de judeus. As indicações tipográficas deixam de surgir no centro e passam para os cantos, num plano menos primordial. Vagueamos um pouco sobre elas até parar sobre Odessa, no mapa.

O espectador assimila logo aqui que o filme tem uma relação especial tanto com o passado, tanto com os judeus como com Odessa. O amarelo, a luz e o travelling (da viagem) são elementos fortes mas mais forte é a importância do âmbar, a resina fóssil que conserva, remetendo para a ideia de memória (central neste filme, como iremos ver) e eventualmente ainda como matéria característica da zona báltica(nas proximidades da Ucrânia).

Será interessante ainda reparar que num dos planos deste genérico conseguimos perceber que é um gafanhoto o animal capturado no âmbar de Augustine, o mesmo animal que Jonathan se preocupa em recolher em casa da senhora de Trachimbrod, no momento em que se dissolvem os enigmas.
As personagens

Jonathan apresenta-se como um coleccionador metódico. Parece ter começado a dedicar-se a essa actividade justamente no dia da morte do seu avô, com o colar de âmbar, e temos oportunidade de o ver em prática em vários momentos de filme. Para além disso aparece como um personagem taciturno e tímido. Fora do seu meio parece completamente inexperiente. No entanto apercebemos também desde os primeiros momentos do filme que é ele quem lança o mote da memória ao vermos a sua colecção de objectos de família exposto na parede (não a mesma do genérico). A sua única preocupação, pelo menos a única que transparece no filme, é realmente a reconstituição e conservação das suas raízes.

Alex, o entusiasta tradutor, não se preocupa com tais questões. Pelo contrário, perfeitamente bem integrado na global cultura popular americanizada, altamente respeituoso dos seus parentes sem nunca perder o seu perfil.

Terceiramente, o seu avô apresenta-se como um personagem anti-semita, apesar de ele próprio judeu, como sabemos mais tarde, e, em geral, mal-humorado. Diz ser cego desde que a sua mulher morreu quando na verdade não o é.

Apenas partindo destas três personagens conseguimos perceber um pouco da essência deste filme. Não podemos fugir às nossas raízes e enquanto alguns as procuram por aparentemente as desconhecerem outros parecem não se ligar directamente a elas (apesar de com elas conviverem no quotidiano). A negação dessas origens dá neste avô que nem de si parece gostar (aliás sobretudo de si).

Vejamos como é explorada esta relação.
As relações

Se desde o primeiro encontro Alex se preocupa em integrar Jonathan o melhor possível a seu modo (não será por maldade que torna o seu nome mais “nacional”), é irrefutável a estranheza. É compreensível que aos olhos de Alex seja de interesse conviver com um Americano mas para o seu avô Jonathan este não é mais do que um judeu, mais: um “caixa d’óculos” americano, judeu e vegetariano. Obviamente o problema está nesta posição e é de notar a forma como isso é explorado cinematograficamente.

Contrastam pois os planos interiores (sobretudo no carro), escuros e apertados, com a luminosidade e abertura dos planos exteriores. De facto se Jonathan procura a verdade o avô condutor parece escurecê-la com o peso que carrega. Somente após o primeiro flashback a atitude do avô se altera um pouco e é a primeira vez que se preocupa em “introduzir” Jonathan ao seu país.

Note-se que no regresso a ausência do avô se faz sentir tanto quanto fez a presença.

A viagem

De uma forma generalista o filme retrata uma viagem e isto não será um acaso. Num carro soviético avançam pela paisagem amarelada dos campos e ao mesmo cada um dentro de si. O avô lembra dolorosamente o seu passado judeu, Jonathan aproxima-se da resposta que procura mas sem saber a razão do seu movimento, Alex quase ingenuamente tenta manter algum intercâmbio cultural, sem nunca chegar a perceber o que se passa com o avô.

A chegada a casa de Lista marca o ponto culminante desta viagem. Rodeada por campos de girassóis até perder de vista, uma casa modesta diante da qual estão estendidos alguns lençóis brancos, é ai guardada a única memória restante de Trachimbrod.

Uma viagem representa sempre uma viagem interior.

O som

Quanto à banda sonora escolhida a estratégia será relativamente tradicional. Tratamos de um road movie e a música enquadra-se nisso mesmo com sonoridades características do país. Não quero com isto em nada denegrir esse aspecto, se não encontramos nisso nenhuma experimentalidade seria difícil fazer uma escolha mais adequada, pressupondo alguma sensibilidade à expressividade de tal cultura musical. É alias interessante o facto de um ouvido atento poder perceber desde os primeiros segundos do genérico onde se vai passar a acção.

Obviamente encontramos tons diferentes, da melancolia à euforia mas destaque-se a opção feita para ilustrar os flashbacks. Orquestrada a música (distingue-se nisso mesmo), consegue nesses momentos impor a carga emocional necessária à implicação do espectador, afastando-o claramente do tempo presente (em conjugação com o trabalho de cor na imagem).
Os símbolos

A luz como verdade e o amarelo como a estrela de David são portanto os dois símbolos mais recorrentes nesta fita. A falsa cegueira do avô como auto-recusa ou mesmo castigo, a cadela como segunda oportunidade (foi recolhida de um canil apesar de demente). Mais do que esses os objectos, o anel de Augustine e o colar de âmbar. Afinal o filme gira em torno disso, são essas provas físicas que fazem com que a memória exista, é esse o tema do filme.

Note-se ainda no final a evolução na atitude de Jonathan. Mais consciente de si já não o perturba a presença da cadela Sammy Davis Jr. Jr. mas sobretudo a dádiva da estrela de David faz sentido.
A síntese

Assim temos nesta adaptação um ensaio sobre a memória e, talvez numa visão mais pessoal, sobre a construção do individuo e suas relações com as origens. O genérico começa por nos mostrar algo que não conseguimos bem definir a um primeiro olhar e, pela velocidade dessa imagem, deixa-nos um enigma. Em seguida remete-nos claramente para a ideia de memória e família pelas fotografias, dando pela presença do mapa a entender que se vai tratar de uma viagem.

Passada esta fase introdutória temos a viagem propriamente dita. Em busca da prova, da memória, da verdade, da luz, da identidade. Não fosse já esta busca em si um conflito (afinal não tínhamos filme sem conflito), é-nos ainda oferecida a relação entre estas três personagens. Afinal se a busca se parece centrar em Jonathan rapidamente entendemos que esta viagem representa muito mais, para cada um deles.

A identidade como ponto de equilibrio do individuo. A luz das nossas origens a iluminar-nos o caminho. A memória como algo tão efémero quanto a materialidade dos objectos.

Teimas tiradas em:

  • http://www.imdb.com/title/tt0404030/
  • http://en.wikipedia.org/wiki/Everything_Is_Illuminated_%28film%29

António Andrade 11/12/07


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