Extensões do Humano
Escrito em Dezembro de 2009, por dardna em Design de Comunicação (gráfico), Design Multimedia.
Extensões do Humano
Confrontados com as problemáticas da dialéctica entre linguagem e acção humana e do modo como a tecnologia, e concretamente o computador, prolongam a memória pela escrita, pareceu-nos fundamental começar por estabelecer relações entre o pensamento de autores inevitáveis na matéria (e aliás enunciados), e as nossas próprias impressões.
Donna Haraway afirma a escrita como a tecnologia que “nos transformou em criaturas cuja vida não é limitada pelo horizonte estabelecido entre dualismos como eu/outro, agente/recurso”. Marshall McLuhan entende nesta relação uma extensão: “a linguagem faz pela inteligência aquilo que a roda faz pelos pés”. Ora a escrita, um medium, pode portanto considerar-se uma extensão da capacidade linguística do homem.
Remediador, como defendem Bolter e Grusin, e potenciador de media historicamente anteriores, o computador estende formidavelmente o género textual de linguagem, permitindo simultânea e paradoxalmente – e tal como outros media anteriormente – a partilha massificada de experiência e a realização de um potencial humano tanto individual como comum, mas inovando determinantemente na questão do acesso. De facto, se pensarmos nos media de massa anteriores, a quantidade de emissores revela-se sempre em muito inferior à de receptores, e isto por razões de ordem política (cf. Poder). Juntando ao personal computer a Web, cada terminal torna-se ao mesmo tempo num potencial emissor/receptor.
Temos portanto uma ferramenta, ou antes, extensão, avassaladoramente magnânime, permitindo às mais diversas escalas transformar o modus operandi da nossa linguagem. No entanto, mais do que demonstrar esta transformação por demais óbvia, pareceu-nos interessante registar aquilo que poderão ser considerados efeitos colaterais. Ao arriscarmos observar este medium segundo um plano mais afastado do que o habitual, ou antes, como se o observáramos pela primeira vez, parecem desfazer-se algumas certezas. De facto, concordámos existirem ilusões entre nós e esta extensão – provavelmente da mesma forma que a lente tende a distorcer a imagem ou a luva nos distancia do sentido do tacto.
As ilusões de veracidade e de totalidade são as primeiras a surgir. Conformados, por exemplo, à utilização de “motores de busca”, esquecemos (toleremos nestas abordagens a generalização) do que se tratam realmente: índices mecânicos, mas não isentos de intenções, e certamente incompletos de resultados – afinal qual a neutralidade destes motores? Não defenderão estes, enquanto corporações privadas, ideologias e interesses? Efectivamente esta questão acaba por ser comum a anteriores media: é por exemplo sensível na autoridade gnosiológica ainda hoje atribuída a um livro ou na neutralidade de canais informativos.
Em meios criativos este problema toma outra proporção, que aliás parece sempre surgir também com outras tecnologias: por trás das capacidades surpreendentes das nossas ferramentas de criação/edição digitais esconde-se um workflow ditatorial. Evidenciam-se portanto barreiras invisíveis. Os media formatam a forma como comunicamos e acabam mesmo por alterar a forma como percepcionamos a realidade em nosso redor.
De forma mais individual, registamos também uma ilusão mista de eminência e intemporalidade e de subjectividade. Um mundo criado diante dos nossos olhos na duração de um loading e que até sabe o nosso nome parece sempre actual e feito especialmente para nós, levantando questões ao nível da identidade dos interlocutores e até do contexto das interlocuções. Por outro lado a sensação de eminência parece induzir uma velocidade que parece já impedir alguns de nós de regressar ao ritmo de outros media mais “tradicionais”, como ensaia Nicholas Carr num artigo sobre a sua actual dificuldade em ler textos longos como no passado.
Apontamos anteriormente o problema da neutralidade relativamente à web ou outros media informativos mas pense-se por exemplo: “Windows ou Mac? Linux?! Qual a ideologia dessa distro?” Os próprios “sistemas operativos” moldam a nossa forma de operar e nem o software livre está escapa à ideologia.
O somatório destas observações pode parecer resultar numa perspectiva negativa do progresso tecnológico e especialmente do computador mas observe-se então: o computador é um medium, tal como antes dele a televisão, a rádio, a imprensa, a escrita ou a fala. Um medium estende a capacidade linguística do homem, permitindo-lhe comunicar em diferentes escalas e formatos. Comunicando portanto sempre um médium uma mensagem como poderíamos esperar do computador, ou aliás de qualquer outro media, isenção? Voltemos então à essência do medium, não será a linguagem uma interpretação da realidade, uma metáfora (do grego para “mudança” ou “transposição”, como realça McLuhan)?
Em última instância tudo o que comunicamos é uma interpretação da realidade que percepcionamos, sendo essa interpretação individual o que nos torna únicos. De certa forma nós somos media (e esse é justamente o mote do nosso projecto). Derradeiramente toda a realidade que percepcionamos é medium, eventualmente de origem transcendental ou mística, ou de puro zeitgeist.
Fez então redobrado sentido o texto de Richard Dawkins em que é introduzido e desenvolvido o conceito de meme. Um meme poderá ser definido como uma forma-ideia que, tal como um gene aquando da reprodução, procura a sua própria subsistência, propagando-se de mente em mente. Uma moda, ideologia, melodia ou slogan podem ser considerados memes. Consolidando a ideia de que somos media, a definição de memes de vida própria será o segundo pilar do nosso projecto.
Executável
Numa primeira fase queríamos para o nosso projecto organizar uma sucessão de entrevistas rápidas em que cada sujeito seria convidado a repetir o melhor possível a mensagem dita pelo entrevistado anterior, um pouco como no jogo do “telefone estragado”, procurando dessa forma tornar naturalmente evidente a transformação de determinada mensagem ao longo de um número de transmissões. Insatisfeitos com os resultados obtidos e não tendo conseguindo optimizar a experiência durante o período de produção proposto (o que passaria por exemplo por reorganizar a experiência com crianças, de quem esperaríamos resultados mais honestos), acabámos por optar por uma ilustração mais controlada do mesmo conceito.
Finalmente o .exe (ou Executável) nasce de uma abordagem definitivamente controlada em que ilustramos a ideia inicial de mutação da mensagem mas por meios de edição digitais.
Concretamente produzimos uma captura de ecrã de uma acção contínua que depois “imprimimos” e filmámos num monitor LCD, num ecrã de televisão e através de um projector, de forma a sintetizar uma “interpretação de uma interpretação” ou remediação, e a arriscar um resultado mais interessante visualmente.
Ainda que tentando vários níveis de leitura, procurámos evidenciar a predominância textual; a rápida e fácil edição; a propagação do meme e o ruído; a interacção com o mundo/web, ainda que solitária; procurando com o acompanhamento áudio transmitir simultaneamente a ideia de local público e de introspecção individual.
Bibligrafia/webgrafia
- Is Google making us stupid, Nicholas Carr, http://www.theatlantic.com/doc/200807/google
- “The Selfish Gen”, Cap. 11, Richard Dawkins, http://www.rubinghscience.org/memetics/dawkinsmemes.html
- Restante bibliografia enunciada.
Projecto realizado com Jorge Ribeiro e Paulo Santos.