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Tipografia

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A ideia germinou no início do semestre da necessidade de formular uma experiência que não só causasse algum impacto mas que sobretudo sintetizasse diferentes esferas de acção da nossa Faculdade de Belas Artes. A sua exposição deveria funcionar no seio da sétima Mostra da Universidade do Porto, evento divulgador mas principalmente informador para jovens que se aprontem a ingressar no ensino superior.

Decidiu-se portanto potenciar a ideia de máquina de desenho, inspirados em grande parte por tantas outras instalações multimédia, e de facto fomos surpreendidos pelo resultado obtido.

Pouco importa hoje o contexto em que primeiramente desabrochou o “Riscador Luminoso”, nome de baptismo do projecto, pois, já com algum recuo, rapidamente percebemos que a ferramenta que tínhamos desenvolvido ia bem para além dessa finalidade efémera ou até dos resultados gráficos relativamente toscos.

Afinal se o desenho é universalmente reflexo de quem o faz, o Riscador Luminoso acaba por representar uma forma descomprometida e minimamente divertida para qualquer um encarar essa actividade ou expressão segundo um novo ângulo.

Tentando resumir o funcionamento do Riscador, os sujeitos são munidos de um apontador de ponta colorida e devem com ele desenhar no ar, diante de uma câmera de vídeo. A imagem captada é processada em directo pelo programa por nós escrito (o núcleo da ferramenta), que a analisa e à qual sobrepõe o desenho, resultando um pouco como um efeito de arrasto em fotografias de longa exposição.

E de facto essa técnica foi outra das nossas inspirações, apesar de bem distinta do nosso método digital. Light Painting foi o nome pelo qual é ainda reconhecido o trabalho fotográfico de Picasso, em 1949, ou ainda o de Müller Brockmann, de 1953. E ainda hoje se pode assistir a múltiplos revivalismos, principalmente na área da publicidade (ver Patrick Rochon) mas não exclusivamente, como é o caso do Lightgraff.

Qualquer exercício na nossa máquina torna as noções espaciais imperativas, obrigando mesmo para, total fruição, a com elas interagir, movendo-se no plano captado, esbracejando, tropeçando, errando, lutando também com os limites da própria ferramenta e sobretudo rindo.

Finalmente os registos foram guardados em formato vídeo e disponibilizados no popular youtube e no site do projecto (http://riscador.acharte.com), representando pela diversidade alguma riqueza humana.

E é exactamente neste ponto que nos pareceu pertinente voltar a pegar no Riscador como forma de pensar a Tipografia. Afinal, contra o que provavelmente se poderá pensar a Tipografia, ou antes, as tipografias, não são coisa inerte ou estática. Pelo contrário, vivem da forma como são usadas, e do que comunicam. E que não se pense que apenas a caligrafia fala do seu criador, afinal toda a letra é desenho, mesmo as mais comuns, as mais soturnas e as mecânicas. E sobretudo, tal como é evidente nos registos obtidos durante a primeira exposição, é sabido pelos mestres da disciplina que a tipografia vive principalmente do que a rodeia, ou por outras palavras, dos espaços brancos (pense-se aqui na relação in vivo do vídeo com o registo gráfico).

Assim escolhemos aproveitar esta oportunidade para nos debruçarmos de novo na ideia de processo, mais do que num resultado estético ou utilitário, abrindo sempre esta abordagem novos caminhos para futuras conceptualizações.

De facto, na corrente emergência tecnológica e digital, a Tipografia (e o desenho em geral) pode e deve ser repensada, de forma a ganhar um novo espaço num campo tremendamente dominado pela velocidade, instantaneidade (e não espontaneidade) da imagem, preservando e justificando assim o seu papel, assim como o de todo o já tradicional material impresso, apesar do óbvio contraste.

É portanto no nosso projecto de reforçar a ideia do processo quase descomprometido como terreno fértil na formação ou construção de um designer, sendo os resultados transmissores das questões que se levantam, destacando-se a relação, aqui espontânea, entre texto e imagem, conteúdo e forma, tipógrafo e Tipografia.

Este projecto foi desenvolvido com o Paulo Santos. Participação e fotografias de Jorge Ribeiro.


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