O designer, entre Lustig e Papanek.
Escrito no dia 1 de Julho de 2008, por dardna em Design de Comunicação (escrito), História e Crítica do Design.
Definitivamente, o conceito de designer, ou antes, o seu papel na sociedade, tem vivido diversas oscilações ao longo dos tempos, entre outros revestindo-se de etiquetas caducas. Provavelmente a primeira razão para tal será a abrangência do seu campo de acção mas não seria justo ficar por aqui. Se o facto de tantos designers testemunharem sobre a sua função demonstra um acto auto-reflexivo (e já nisso a sua abrangência), prova ainda a meus olhos o quão políticas são as diversas concepções, cada uma tentado organizar a sua responsabilidade entre arte, utilitarismo e publicidade.
No seu ensaio de 1975 Victor Papanek procura literalmente desmistificar este agente social e económico, trazendo-o de volta à terra, e já vinte e um anos antes Alvin Lustig se debruçara sobre o assunto, numa abordagem bem diferente.
Verdade seja dita, a preocupação de Lustig parece assentar um pouco no primeiro grande mito apresentado por Papanek: o de que o design é uma profissão, sendo no fundo esta ideia, na sua opinião, um pretexto de auto-ajuda (no seu estabelecimento) e legitimização. Em suma, trata-se de explicar que o design e o designer terão muito menos a ver com estudos de mercado do que com um processo evolutivo, isto é, o designer, mais do que ter uma especial capacidade técnica para desenvolver determinado tipo de trabalho, será dotado de um instinto antecipador, produzindo hoje objectos com os quais a sociedade consumidora de amanhã se indentificará, desenhando a sociedade do futuro (no sentido iminente). O próprio Alvin se desculpa por poder parecer presunçoso, tal não é o seu objectivo, pelo contrário, procura integrar melhor o designer na suas relações com os restantes actores da produção, demonstrando como a liberdade criativa do mesmo será benéfica para o resultado final.
Também não será uma posição proibitiva quanto ao design mais banal, simplesmente quer-se demonstrar que não será por uma fórmula ter sucesso em termos de vendas que o designer estará “condenado” a explorá-la à exaustão: o papel do designer, idealmente liberto de instruções precisas, passará por desenvolver conceitos inéditos (subentendendo-se aqui que na maior parte dos casos, a simples repetição poderá ser legada a outros estádios ou actores da produção, experientes em rentabilizar o investimento do cliente num resultado de eficácia estatisticamente comprovada).
Obviamente esta ideia não é completamente absurda mas é aqui do meu interesse saná-la: onde o design terá mais utilidade e sucesso será sem dúvida na inovação (e isto em controvérsia com as palavras de Lustig: “I am not suggesting that the designer is an innovator – period”). Não será esta ideia também um tanto elitista? É então directo o confronto com o texto de Victor Papanek que, também ele designer, revela preocupações precisas e uma visão positivamente global.
Para Victor, são justamente as sucessivas alterações no sentimento de designer que tendem a colocá-lo em tal pedestal, do qual o resto do mundo viverá alienado. Em reacção, a classe procura uma aproximação, tanto pela sua própria reformulação, como tentando produzir na audiência um efeito de dependência. Se finalmente a primeira parece ter um impacto estritamente interno, todos concordaremos que a segunda metodologia foi executada quase à perfeição: hoje, ainda mais do que no passado, o design representa um significativo acréscimo de valor no objecto.
Mas Papanek vai mais longe, sem receio de se descredibilizar a si e aos seus colegas: sintetizando, o designer não é forçosamente dotado de bom gosto, sendo esta ideia manipuladora, e tão pouco provido de capacidades técnicas inalcançáveis aos restantes mortais. O design não é para o povo nem responde a necessidades reais nem providencia conforto, pelo contrário, cria as lacunas que procura satisfazer.
Estará Victor a dizer-nos que o design é uma má influência? Não, a verdade é que o potencial da disciplina parece deslocado, “todos os homens são designers” e como tal esta deveria ser parte integrante da realização de cada indíviduo, ao invés de ser vista como arma comercial, como defensora do “capital”. Repare-se então neste “capital”, propositadamente citado e revelador do fundo ideológico do autor. Em oposição a Lustig, que anteriormente se preocupou exclusivamente com as relações do designer com o seu empregador, Victor Papanek importa-se principalmente em induzir no design uma função correctora, introduzindo aqui as suas preocupações ecológicas (e éticas), defendendo um design mais dialéctico, no qual as reais necessidades sejam tidas em conta assim como a participação do sujeito.
Comparando as duas posições, apesar de afastadas no tempo e na tese, seria erróneo declarar uma delas a correcta: como já vimos a questão não é posta ao mesmo nível. Pessoalmente incomoda-me o elitismo que transparece na visão de Lustig, ao mesmo tempo demasiado desresponsabilizador, não deixando de me parecer aceitável a ideia de que uma maior liberdade pode, eventualmente, trazer progresso. Por outro lado Papanek talvez seja negativamente utópico ao acreditar que ao partilhar o design com todos estará a curar-nos do mal consumista: trata-se de uma matéria activamente influente mas que, tal como a conhecemos, se desenvolve à sombra disso mesmo, ou seja, de facto, aquilo em que o design se demonstrou mais eficaz foi na função directamente comercial e/ou propagandista. É claro que o podemos tentar isolar desse ramo mas corremos o risco de o fragilizar, é indiscutivel que o “capital” falará mais alto. Equivalente a isto é tratar o design como um instrumento e, então, é mais uma vez importante apelar à ética do designer.
Chegados a este ponto continuamos com um problema de definição quanto ao design. Será redutor vê-lo restritamente como actividade publicitária e demasiado amplo pensar que todos os homens são designers. Direi, e não serei nisso original, que o design é a disciplina que organiza a comunicação e que torna os objectos comunicantes. Relativamente ao designer, a polivalência necessária à sua actividade deveria ser suficiente para que se apercebesse do poder que transporta.
Bibliografia:
- “What is a Designer?”, Alvin Lustig, 1954
- ”Edugraphology – The Myths of Design and the Design Myths”
António Andrade, Junho 2008