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Sobre a ideia de progresso em “Ornamento e Crime”, de Adolf Loos

Neste manifesto Adolf Loos procura claramente aliviar o peso da ornamentação em prol da funcionalidade (sem amarras estilísticas) na produção humana em geral, começando para isso por estabelecer uma ideia de evolução paralelizada com o crescimento de um humano. Assim, sintetizando a sua ideia, da mesma forma que um qualquer bárbaro, a criança é amoral e será, por exemplo, menos sensível a certas nuances cromáticas. Em contrapartida, assim como o adulto saberá distinguir nuances mais delicadas como o violeta e terá já uma certa construção ética, do homem moderno serão de esperar outras atitudes (em oposição ao anterior bárbaro). Nesta linha de pensamento, sendo a ornamentação tão característica da criança quanto do bárbaro (principalmente por questões identitárias), seria de esperar que esta necessidade já não se fizesse sentir no homem moderno.

Não se trata aqui de uma teimosia de Loos, antes pelo contrário: para ele não se justifica o dispêndio de energia exigido pela ornamentação quando, pelas mudanças de moda, todos esses estilos rapidamente passarão a obsoletos. Por outras palavras, será preferível um objecto que pela sua contenção estilística possa ser usado ao longo de vários anos a outro que pela sua forte ornamentação se torne rapidamente insuportável esteticamente (e que logo deva ser substituído).
Para Loos o progresso não passa então por reformular ou inventar ornamentos mas justamente pela sua abolição: ao contrário do bárbaro e da criança, o homem moderno já não precisará de tais artífices para exprimir a sua individualidade e deve ocupar-se com outros assuntos que não a elaboração dessa “máscara”.

Se o (talvez não muito original) paralelismo inicial parece comummente aceitável, até em visões de evolução distintas, é claramente a abolição da ornamentação como progresso que mais controvérsia gera. É então preciso lembrar que este ensaio (que não foi logo publicado) é escrito contemporâneamente com o Arts and Crafts (que visa, usa e abusa da ornamentação), uma época em que surgem “armários com o nome de a ”Princesa Encantada” e outros parecidos”. Logo compreendemos que vem em agressiva reacção, não só a estes mas também a toda uma classe que vive destas modas sem delas duvidar e até mesmo impondo-as, e que se o problema se puser hoje em dia talvez não possa ser tomado da mesma forma.

Antes de mais é preciso ver que afinal a ornamentação também é uma técnica e que, pelo menos na minha opinião, enquanto elemento de saber não deve ser puramente eliminado. Não direi que deve sobreviver “porque é bonito” mas porque deve ter a sua cota na experiência humana, sendo essa a sua função: a riqueza. E é também contra a riqueza que Loos se revolta, contra a subvalorização do trabalhado do que ornamenta. Mas então porque não lhe atribuir o justo valor e espaço, quando necessário, em vez de simplesmente “investir mais 10 coroas no trabalho e pedir que este não venha ornamentado”? Parece-me óbvio que esta ideia revela algumas preocupações socialistas (repare-se como ele refere que a “praga do ornamento” é subsidiada pelo Estado) quanto à condição do trabalhador, tanto a nível do reconhecimento do processo criativo quanto à qualidade que este almeja mas, ao reduzirmos o tempo de produção de cada peça, aumentando a (possibilidade de) cadência de produção do modelo, descuidando a ornamentação, não correremos o risco de cair na exagerada uniformidade? Adolf responde-me que o homem é único por si só… A ornamentação é para Adolf Loos um crime porque nos subjuga ao estilo mas não seremos nós a deixar-nos subjugar por ele? Será coerente entrar no jogo das modas e mudar o mobiliário de casa todos os anos? Com certeza que não mas será disso que viverão as classes que se podem permitir tal coisa: mais do que beneficiar dos objectos trata-se de consumir e todas estas questões estarão ligadas ao capitalismo . O mais louvável na ideia de Adolf é então a valorização das restantes capacidades humanas em detrimento dessas manhas sociais, abrindo caminho para a invenção de real “utensílio doméstico”.

O designer actual deverá então, na minha opinião, saber conjugar estes dois pólos tendo sempre como ponto de partida a função e, somente secundariamente o aspecto estético (que passará pela ornamentação), porque um objecto deve ser útil mas pode ser belo para além disso, enquanto luxo da experiência estética. E não quero com isto exprimir desacordo com Loos, no sentido em que nos tornaríamos certamente seres mais refinados (e puros) se abolíssemos a preocupação ornamental (muitas vezes mãe de descriminações sociais etc), procuro apenas trazer alguma moderação pois são as diferenças e dicotomias que trazem riqueza à experiência.

Parece-me ainda discrepante da parte do arquitecto começar por afirmar que toda a arte é erótica (uma das principais necessidades da criança) e no final avançar que “a ausência de ornamento elevou as restantes artes”. Afinal a arte existe porque é necessária, porque o adulto precisa tanto desse erotismo quanto a criança (sendo que o exprime de formas diferentes*) e não podemos recalcar essa necessidade ainda mais do que o natural, há que saber geri-la.

Concluindo, repito que não discordo de Loos na parte mais global da mensagem, a ornamentação deve (e devia, na altura) ser repensada, mas abolida não! Seria amputar o dedo ornamentador do criador: depois disso nunca mais saberia ornamentar. Acho ainda de mau gosto que, apesar da sua ideia, suporte “o ornamento do negro zulu, do persa e da camponesa eslovaca”. Não deveriam então esses povos também abandonar os seus métodos e seguir pouco a pouco a sua ideia de progresso? Talvez deseje antes tirar o seu sapateiro da subvalorização em que trabalha e colocar em seu lugar o bárbaro. Recusar um espaço ao ornamento é recalcar a necessidade de belo (o que na minha opinião causaria degeneração) mas, em justa dose, abriu caminho a outras engenhosidades e, intemporalmente, põe em causa o “jogo de modas” de que falava. Afinal a pintura, para além de comunicar também procura certas noções estéticas e contra ela não foi Adolf.

*quanto a este assunto será eventualmente interessante contrapor a esta procura de pureza/refinação alguns acontecimentos de ordem pervertida na vida de Adolf, mas tento aqui manter a distância entre o homem e a obra.

Bibliografia

• “Ornamento e Crime”, Adolf Loos
• http://en.wikipedia.org/wiki/Adolf_Loos (consulta a 11/05/08)

António Andrade 12/05/08


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